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...deixe a figueira ficar mais este ano. Eu vou afofar a terra, cavar em volta dela e pôr bastante esterco (v.8 – Tradução Eugene Peterson).
Lucas 13.6-9

Todo aquele que se aproxima de uma figueira espera encontrar nela figo. O fruto não só alimenta aquele que se aproxima, mas também reproduz sua espécie. Daí ser natural à figueira produzir figos. De igual modo, todo aquele que se aproxima de alguém que se declara cristão espera encontrar nele o fruto do Espírito cujas propriedades são: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (Gálatas 5.22-23).
Acontece que nem sempre a figueira produz figo, assim como nem sempre o cristão produz o fruto do Espírito. Pessoas chegam até nós e podem encontrar tristeza amarga, ansiedade profunda, impaciência irritante, fel maligno, maldade incontida, agressividade hostil, desequilíbrio generalizado no corpo e na alma.
Ao invés de uma solução por amputação (corte a árvore), quando matar parece ser solução para um mundo melhor, o agricultor da figueira faz a opção por pedir um tempo, mais um ano. O jardineiro de nossa vida sabe o que é necessário fazer quando estamos infrutíferos.
Em primeiro lugar, é necessário afofar a terra. As experiências adversas da vida podem produzir um terreno batido, cansado, traumatizado, pisoteado, endurecido em nosso coração. Terra assim torna-se impermeável, incapaz de receber a água da chuva e se revitalizar. É necessário revolver a terra, relembrar nossa vida, recontar nossas experiências em outro ângulo, em uma nova perspectiva de análise, pensar diferente a respeito de nós mesmos e de nossas vivências e relacionamentos. Por isso o salmista clamou a Deus que ensinasse a contar seus dias, narrar sua história, para que alcançasse coração sábio e equilibrado (Salmo 90.12).
Também é necessário cavar ao redor. Para uma restauração de nossa fertilidade é necessário ir ao ponto, ser mais incisivo, específico, cortante, penetrante. Precisamos discernir e afastar nossos fracassos, falências, desgostos, frustrações. É necessário identificar para combater as marcas que sugaram os ingredientes e nos deixaram amargos, indiferentes, desapaixonados. Uma terra revolvida e cavada ao redor de nossas raízes está apta a receber água pura que vem das chuvas dos céus. O jardineiro que cuida do nosso coração sabe como fazer isso de maneira respeitosa, amigável, desafiadora. Ele não machuca arrancando pedaços, mas cava, cuidadosamente, ao redor.
Por último, é necessário colocar esterco. O esterco parece não servir para nada, além de não ter cheiro agradável. Contudo, ele serve para corrigir, compensar, complementar, fertilizar, recondicionar, nutrir. Igualmente pode parecer inútil e difícil enfrentar a necessária liberação de perdão, ou o desafiador pedido de perdão. Importante será reatar, reconciliar, ter ajuda de outras pessoas, submeter-se, humilhar-se, tolerar, silenciar, aquietar-se.
A expressão grega usada “aphes” traduzida por deixe (a figueira) é a mesma usada por Cristo na cruz quando disse: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem (Lucas 23.34), como que dizendo: calma, dê um tempo, espere, atenue, perdoe.  Definitivamente, Deus decidiu dar esse tempo para nós (2 Pedro 3.9). Estamos vivendo esse momento especial para que o jardineiro do nosso coração complete a boa obra que começou (Filipenses 1.6). Vamos nos entregar desejosos de receber esse cuidado, enquanto clamamos: dá mais um tempo, por favor!

Rev. Rodolfo Garcia Montosa