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Mateus 27.57-60, Marcos 15.42-46, Lucas 23.50-54, João 19.38-42

 

Podemos aprender lições importantes sobre a cruz de Cristo com José, um judeu nascido na cidade de Arimateia, sul da Palestina. Desde criança ele aprendeu a praticar a Lei de Moisés no seu lar e na sinagoga, e por isso tornou-se um "homem bom e justo" (Lc 23.50). Dedicado ao trabalho e aos negócios, adquiriu bens que fizeram dele um homem rico (Mt 27.57). Ocupou posição de destaque como membro do Sinédrio (Mc 15.43a), a assembleia de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos de Israel. As profecias bíblicas alimentavam no seu coração a esperança do reino de Deus (Marcos 15.43b), reino este que seria manifestado com o advento do Messias, descendente de Davi (Is 9.6-7).

Este homem, como todo judeu piedoso, tinha a expectativa de que o rei prometido podia manifestar-se nos seus dias. Atento ao cumprimento das profecias, foi percebendo, aos poucos, que a autoridade do reino de Deus se manifestava nos ensinos e nos milagres de Jesus de Nazaré (Mc 1.21-28). Tornou-se discípulo do Nazareno. Mas, como membro do Sinédrio, notava que a oposição das autoridades religiosas ao Mestre tinha como motivação a inveja (Mt 27.17-18). Por prudência, manteve a sua condição de discípulo em segredo (Jo 19.38). Ao tomar conhecimento de que Jesus aplicava a si mesmo o título de Filho do Homem (Jo 3.1-2,13-14), encheu-se de expectativas, pois na visão de Daniel sobre o Filho do Homem (Dn 7.13) "foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído" (Dn 7.14). No entanto, Jesus afirmava que o Filho do Homem seria levantado na cruz, não no trono (Jo 3.13-16; 12.23,32). Por isso, José de Arimateia, e mesmo os apóstolos, precisavam aprender que Jesus e seus discípulos conquistam autoridade pelo serviço sacrificial e não como os dominadores deste século (Mc 10.33-45). O discípulo entra no reino de Deus pelo novo nascimento (Jo 3.1-9) e entroniza o Rei pela confissão (Rm 10.9-10). E a confissão do discípulo acaba com o segredo ou o segredo acaba com o discipulado.

Apesar do receio dos judeus, José não desistiu de ser discípulo. Como membro do Sinédrio,  não participou da decisão de condenar Jesus (Lc 23.51). Seguiu o Mestre até à cruz. Percebeu que tudo o que estava acontecendo era cumprimento de profecias que ele conhecia muito bem (Mt 26.31, 53-54, 56; 27.9-10, 44; Mc 15.24, Sl 22.18; Mc 15.28, 34; Lc 22.37). A profecia da morte vicária do Messias (Is 53.4-8) tornou-se claríssima para ele. Diante da justiça de Deus revelada na cruz em seu lugar, percebeu que as suas obras de justiça eram trapos de imundícia (Is 64.6) e que o amor revelado na cruz era inigualável (Rm 5.8-11). Nesse contexto, fazia sentido para ele as palavras de Jesus: "E eu, quando for levantado da terra (na cruz), atrairei todos a mim mesmo" (Jo 12.32). A atração da cruz foi para ele irresistível!

A compreensão do significado da cruz destruiu o medo e o discipulado secreto. Corajosamente ele se dirigiu a Pilatos, pediu o corpo de Jesus, enfaixou-o em linho fino com as especiarias levadas por Nicodemos e, antes de começar o sábado às 18 horas da sexta-feira, colocaram o corpo do Mestre num sepulcro novo, da família, onde ninguém tinha sido ainda sepultado (Mt 27.58-60; Mc 15.43-46; Lc 23.52-54; Jo 19.38-42). Enquanto os discípulos professos se esconderam nesse momento crítico (Mt 26.56, Mc 15.50), José e Nicodemos não permitiram que o corpo do Mestre permanecesse no madeiro (Dt 21.22-23) nem que fosse jogado numa vala. Surpreso, José percebeu que mais uma profecia tinha se cumprido: ..."com o rico esteve na sua morte" (Is 53.9). Podemos concluir que José de Arimateia tornou-se convicto da verdade a ponto de renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir publicamente o divino Mestre (Mt 16.24-25). As informações extra-bíblicas, apesar de algumas lendas, apresentam esse notável judeu como fiel servo do Senhor Jesus.

O túmulo onde José colocou Jesus na sexta-feira da paixão ficou vazio no domingo da páscoa, mas o trono à direita do Pai está ocupado pelo Cristo que venceu a morte. Prostremo-nos diante dele em adoração.

Rev. Mathias Quintela de Souza