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Mensagem de 24.04.16

Três vezes orei ao Senhor, pedindo que ele me tirasse esse sofrimento (espinho na carne)
(2 Coríntios 12.8 – NTLH).

Sei que esse é o tipo de reflexão não muito popular. Não queremos ouvir pregações que dizem que o “não” é uma possibilidade. Parece-nos que a fé somente é válida se seguida do “sim”. Acontece que grandes servos de Deus receberam um “não” como resposta: Moisés não atravessou o Jordão (Dt 34.1-4); o rei Davi não teve seu filho curado ( 2 Sm 12.14-23); o profeta Elias não morreu (1 Rs 19.1-4; 2 Rs 2.11); Jesus não foi poupado da cruz (Mt 26.39, 42; Rm 8.32). Paulo também teve seu pedido negado. O que o “não” de Deus nos ensina?

O “não” nos ensina da soberania de Deus. Apesar da longa folha de serviços de Paulo, Deus não se viu obrigado a dizer “sim”. Se Deus fosse obrigado a responder com “sim” às orações, mesmo que razoáveis e justas, não seria Deus. Oração não é um tipo de magia que, seguida a fórmula, assegura-se o resultado. Nem é um tipo de escambo, que cumpridas as condições, atinge-se o objetivo. Oração é um relacionamento com aquele que é soberano em sua vontade, tem poder para fazer o que quer, quando quer, do jeito que quer. Lidamos com o mistério do silêncio, da aparente demora, de decisões não esperadas, nem compreendidas. Nada melhor que um “não” para nos dar consciência de quem é verdadeiramente Deus.

O “não” nos ensina da vulnerabilidade humana. A igreja de Corinto tinha pessoas que estavam medindo seu nível de espiritualidade, contando vantagens sobre os demais, pelos muitos dons que manifestavam e pelas muitas línguas estranhas que falavam. Paulo, após catorze anos de segredo, revela que tinha sido arrebatado ao paraíso, e ali ele ouviu coisas que palavras humanas não conseguem contar (2 Coríntios 12.1-4 - NTLH). Ou seja, ninguém tinha experiências espirituais tão profundas como ele. Consciente da vulnerabilidade ao orgulho e outras mazelas, disse: para que não ficasse orgulhoso demais por causa das coisas maravilhosas que vi, eu recebi  uma doença  dolorosa, que é como um espinho no meu corpo (2 Coríntios 12.7). Nada melhor que um “não” para nos proteger de qualquer orgulho espiritual, ou da sensação de sermos melhor que outros.

O “não” nos ensina da maravilhosa graça. Em sua oração, Paulo ouviu o Senhor: A minha graça é tudo o que você precisa, pois o meu poder é mais forte quando você está fraco (2 Coríntios 12.9a). A graça do “sim” que transporta para o paraíso é a mesma graça do “não” que mantém o espinho na carne. O “não” é a graça para nos manter na graça. O “não” de Deus não é ato de insensibilidade, desprezo, ou desinteresse do Senhor por nós. Ao contrário, quando o Senhor diz “não” é para nosso próprio bem, mesmo que esteja além da nossa compreensão. Paulo entendeu tão profundamente a bênção do “não”, que chegou a declarar: eu me sinto muito feliz em me gabar das minhas fraquezas, para que assim a proteção do poder de Cristo esteja comigo (v.9b). Nada melhor que um “não” para nos fazer agarrar com todas as forças na real dependência da graça do Senhor diante de nossas limitações e fraquezas.

O que é um espinho? Algo pequeno que nos incomoda muito. Algo para nos esbofetear, algo para nos lembrar que somos mortais, algo para nos fazer depender do Senhor. Todos enfrentamos espinhos na carne que não serão tirados, mas servirão para desenvolver perseverança até nosso completo amadurecimento. Tudo o que vem dos céus é bênção para nossa vida, quer seja na forma de “sim”, quer seja na forma de “não”.

Rev. Rodolfo Garcia Montosa