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Quando nos deparamos com situações do dia a dia é que percebemos que, muitas vezes, somos preconceituosos.

Você se considera preconceituoso? A resposta politicamente correta é não. Mas se usar de honestidade, ainda que seja consigo mesmo, talvez admita um certo conceito preestabelecido.Veja bem, não se trata de preconceito. Convido você a bisbilhotar conversas de algumas pessoas. O que acha?

— Imagina! A vida dos outros não me desperta curiosidade.

Neste caso não tem problema, pois são apenas personagens fictícios e “nada” tem a ver com a realidade. Vamos!  

— Não é do meu feitio, mas já que você insiste...

No ônibus

Segunda-feira, 7 horas da manhã, Adélia esperava, no ponto, o ônibus para o trabalho. Estava em cima da hora e isso lhe causava irritação, uma vez que tinha por hábito chegar adiantada pelo menos dez minutos. Ainda por cima, tinha uma fila para entrar no coletivo. Finalmente conseguiu. Que aperto! Alguém que estava um pouco atrás dela puxou assunto.

— Adélia, tudo bem?

— Oi Sílvia.

— Menina, você sabe o motivo da fila para entrar no ônibus?

—Ah! É que aquela moça gordinha ali ficou entalada na roleta.

—Sério?

—A vida de uma pessoa gorda é tão complicada, né?! Devia tomar vergonha e fazer um regime.

—Não é tão fácil. Eu já fui obesa, fiz tudo quanto é tipo de regime e não consegui perder peso. A solução para o meu caso foi a cirurgia de redução do estômago.

Adélia ficou sem resposta e as duas seguiram sem trocar mais nenhuma palavra até a parada final.

Na praça de alimentação do shopping

Era um sábado à tarde e depois de saírem do cinema, Márcia e Dora decidiram tomar um lanche.

—Quanta gente, Dora!

—É mesmo. Estou vendo uma mesa ali.

As duas se acomodaram. E enquanto lanchavam, observavam o movimento. Pessoas bem vestidas, aparentando boa condição financeira, logo renderam comentários.

—Sabe Márcia, eu vejo essas pessoas passeando aqui e penso: “quanta futilidade!”

—Por quê?

—Muitas delas não sabem o que é lutar na vida. Está vendo aquela moça de verde ali? Aquela toda arrumada, cheia de joias, roupa de marca, e óculos de sol - aliás não sei por que usar óculos de sol em ambiente fechado - ela nem olhou para a mulher que está recolhendo o lixo ao lado da mesa dela. Quanta arrogância!

—Mas a mulher da limpeza falou com ela?

—Não vi.

—Por que o comentário então?

—Sabe por que esse tipo de atitude me incomoda, Márcia? É que eu nasci numa família pobre, perdi meus pais quando era adolescente, tive que batalhar muito para estudar, conseguir um emprego e ainda hoje, luto com dificuldade. Quando você passa por privações, fica mais aberta e sem preconceitos. Por isso quando eu vejo pessoas que nunca precisaram lutar por nada, receberam tudo de bandeja, e ainda ignoram os outros, eu fico inconformada.

 —Realmente algumas pessoas se acham melhores que as outras, mas isso não necessariamente tem a ver com condição financeira. Se não me engano, aquela moça de verde é uma amiga da minha chefe e ela tem um problema de visão, é quase cega. Neste caso a sua indignação não faz sentido, Dora.            

Depois do comentário de Márcia, a conversa acabou e as duas terminaram o lanche observando em silêncio o movimento na praça de alimentação.

Na fila do banco

Era segunda-feira, quase meio-dia, Carlos e Roberto se encontraram na fila do banco.

—Cara, que movimento! Carlos iniciou a conversa.

—É verdade. Ainda por cima não entendo por que os idosos costumam vir retirar a aposentadoria bem neste horário. Eles têm tempo de sobra e a gente apenas o horário de almoço para vir ao banco. Eu fico irritado, desabafou Roberto.

Um pouco mais à frente, na fila, havia dois rapazes falando alto, rindo, pareciam nem se incomodar com a demora. Estavam se divertindo. Um deles era alto, forte, usava uma camiseta regata branca exibindo os músculos; o outro era franzino, com trejeitos efeminados.

Roberto olhou para os rapazes e disse a Carlos:

—Olha só o jeitinho daqueles dois, que pouca vergonha!

—Ué, aquele de branco não é o seu primo? Aquele que indicou você para esta empresa em que está trabalhando?

Roberto não tinha percebido que era o seu primo um dos rapazes. Ficou desconcertado, inventou uma desculpa, disse que acabava de se lembrar de um compromisso. Quando ia saindo ouviu alguém lhe chamar:

—Ei , primo.  

Roberto, meio sem jeito, se aproximou do rapaz na fila.

—Desistiu de esperar?

—Lembrei que tenho um compromisso. Vou deixar para descontar o cheque depois.

—Se quiser eu desconto pra você e deixo lá na empresa. Aliás, como vai o novo emprego?

Na porta do bar

Gil e Marcelo haviam combinado de encontrar Valmir na porta do bar onde tomariam alguma coisa antes de ir pra balada. Enquanto aguardavam o parceiro, observavam a igreja do outro lado da rua, bem em frente ao bar

—Gil, eu acho esse povo tão bitolado, fundamentalista. Eu não entro em igreja por nada neste mundo.

—Muitos evangélicos são mesmo alienados, se acham donos da verdade, mas alguns são “gente boa”, como a minha avó. Ela nunca condenou meu estilo de vida.

—Eu não gosto de crente. Sou favorável a leis que ponham um freio nessa gente preconceituosa, afinal de contas liberdade de expressão é válida apenas para quem sabe usar.

—Em parte concordo com você. Mas quem é capaz de determinar o “bom uso” da liberdade de expressão? Será que existe um legislador ou juiz totalmente imparcial para isso? Muitos usam o conceito de liberdade de expressão para legitimar o preconceito seja de que lado for.

Gil e Marcelo foram interrompidos abruptamente por Valmir que se aproximou ofegante.

—Está tendo uma troca de tiros entre polícia e assaltantes ali na esquina. Levei um tiro de raspão. A coisa está feia. Vamos entrar no bar.

—Aqui não — disse o segurança barrando a entrada dos rapazes — não queremos confusão.

Apavorados atravessaram a rua correndo e entraram na primeira porta aberta que encontraram.

—O que aconteceu?  —  perguntou um homem grisalho e sorridente no saguão da igreja.

—Está tendo uma perseguição policial aí na rua. Meu amigo levou um tiro de raspão, disse Marcelo apontando para a perna de Valmir.

—Entrem e tomem um chazinho para acalmar – disse o senhor – quanto ao seu amigo, vamos cuidar do ferimento.

E aí, o que achou da vida alheia?

A questão é que nos colocamos como padrão e olhamos para os outros através desta lente. Será que ela não é uma trave? (Mateus 7.1-5). Jesus é o modelo para os que são dele, sendo assim, devemos distinguir o comportamento, da pessoa. Posso não concordar com o outro, mas não preciso rejeitá-lo por isso. Vale sempre lembrar que a função de julgar não é nossa e por isso somos péssimos neste ofício.

Vanessa Sene Cardoso