1 Coríntios 15.12–20
O que é fé? Essa é uma das palavras mais usadas, e talvez menos compreendidas, da experiência cristã. Em diferentes contextos, ela recebe significados distintos: crença, esperança, convicção. Mas será que a Bíblia usa essa palavra da mesma maneira que o senso comum? Será que fé é apenas acreditar sem base alguma, ou existe algo que a sustenta? Ao escrever aos coríntios, o apóstolo Paulo associa a fé cristã diretamente à ressurreição de Jesus. E, ao fazer isso, ele conduz seus leitores por um percurso claro: primeiro, confronta ideias equivocadas sobre o que a fé não é; depois, mostra o que acontece quando o centro da fé é atacado; e, por fim, afirma onde a fé cristã verdadeiramente se apoia. É esse caminho que encontramos nesse trecho da carta e que orienta nossa reflexão.
No primeiro movimento do texto, Paulo confronta a noção de uma fé vazia (1 Coríntios 15.12–14). Alguns em Corinto afirmavam que não havia ressurreição dos mortos, ainda que mantivessem uma fé cristã. Paulo revela a incoerência dessa posição: se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e é vã a fé que vocês têm (vv 13-14). O termo no original kenós, traduzido por vã, tem o campo semântico que significa vazio por dentro, oco, sem conteúdo, sem substância, sem realidade correspondente, sem lastro. Fé, portanto, não é um recurso para quando não se consegue explicar ou provar algo; não é o nome dado ao que sobra depois que os argumentos se esgotam. Chamar de fé aquilo que ignora a realidade não é espiritualidade, é confusão. Como observa John Lennox, “fé não é um salto no escuro, mas um compromisso baseado em evidências”. Para Paulo, fé sem conteúdo não é virtude, é ilusão. Quando Paulo chama a fé de vã, ele não está dizendo que ela é fraca, mas que ela é vazia; não falta intensidade, falta realidade. É como alguém em busca de crédito (fé) sem comprovar sua capacidade de pagamento, sem oferecer garantia, sem oferecer fiador ou fiança.
Em seguida, Paulo amplia o argumento e mostra que não está apenas diante de algo mal compreendido, mas está diante da fé sob ataque (1 Coríntios 15.15–18). Negar a ressurreição não é questionar um aspecto secundário da fé, mas atingir o seu núcleo. Se Cristo não ressuscitou, os apóstolos se tornam falsas testemunhas, Deus é apresentado como alguém que não cumpriu o que afirmou ter feito, a cruz perde sua eficácia, os pecados continuam sem solução, os que morrem estão para sempre perdidos e não há esperança. Trata-se de um efeito dominó que compromete toda a mensagem cristã. É como um terremoto que ataca a fundação e desmorona tudo o que está construído em cima.
Paulo conduz então para a afirmação de uma fé fundamentada (1 Coríntios 15.19–20). Ele reconhece que, se a esperança cristã se limitasse a esta vida, os crentes seriam as pessoas mais infelizes deste mundo (v 19). O cristianismo não é um consolo psicológico criado para amenizar frustrações; ele só faz sentido se for verdadeiro. Assim como ninguém confia verdadeiramente em alguém sem conhecer seu caráter, seu histórico e a maneira como essa pessoa age diante das situações, a fé cristã é confiança depositada em um Deus que se revelou por meio de atos objetivos na história. A fé não gera o fato; ela responde ao fato. Não é uma ação que faz acontecer, mas uma reação ao que já foi feito. Não cremos porque precisamos acreditar em algo; cremos porque algo aconteceu. A fé não cria a verdade; ela confia na verdade. Não se trata de fechar os olhos, mas de confiar à luz do que foi visto. Por isso, Paulo não encerra seu argumento preso às hipóteses. Depois de examinar tudo o que desmorona se a ressurreição for negada, ele declara com firmeza aquilo que sustenta a fé cristã: Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos (v 20). Essa afirmação encerra o debate e estabelece o fundamento. A fé cristã não repousa no inexplicável, mas no acontecimento. Sem a ressurreição, a fé é vazia; com a ressurreição, ela é sólida, coerente e plenamente razoável. A ressurreição de Jesus não é um detalhe da fé cristã, é o solo firme sobre o qual ela se constrói.
Diante de tudo isso, fica claro: a nossa fé cristã não é vazia, mas cheia de conteúdo. Mesmo sob ataque, ela permanece firme, porque está fundamentada na verdade extraordinária de que Jesus ressuscitou e está vivo.
Rodolfo Montosa


