E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes (Lucas 23.34 – ACF).
Não há dúvidas de que o contexto do versículo base desta lição foi um dos mais tensos da história. De um lado, Jesus, o Cordeiro santo, o próprio amor encarnado; do outro, a humanidade: o egoísmo da incompreensão mundana que se deparava com o antídoto para o veneno que a matava, mas escolheu rejeitá-lo.
Ao lermos, parece fácil julgar aqueles que violentavam nosso amado Cristo. Nosso coração se incomoda com a injustiça e até mesmo se enche de ira. É conveniente olhar para o texto e nos colocarmos no lugar do injustiçado e do maltratado, lembrando-nos de quando nós também (nas devidas proporções) nos vimos injustamente crucificados.
Contudo, Jesus nos revela que, no grande contexto do evangelho, desde a queda, ainda que sejamos eventualmente acusados, não pertencemos naturalmente ao grupo do Cristo, mas sim ao grupo do povo. Somos nós os acusadores sedentos por sangue. Não importa o quanto nos consideremos bons, amáveis ou justos, se estivéssemos no Getsêmani naquela madrugada, provavelmente teríamos clamado por Barrabás.
É nesse momento de incrível dificuldade que Jesus rompe os céus com misericórdia inigualável. Em um manifesto de graça pura, ele perdoou o Israel que o acusava e abriu caminho para um novo Israel, no qual eu e você fomos enxertados. Naquele julgamento, fomos absolvidos, e nosso Advogado sedimentou a jurisprudência: definiu um precedente obrigatório pelo qual devemos pautar nossa vida.
Se estender perdão àqueles que nos fazem coisas inimaginavelmente cruéis parecia algo impossível, Jesus revela que não apenas é possível, mas também constitui a bandeira suprema do evangelho. A cruz que devemos carregar – não só para nossos amados, mas também, e sobretudo, para nossos acusadores.
Emmanuel Gaspar Valle


