Então o Senhor veio e ali esteve, e chamou como das outras vezes: — Samuel, Samuel! Este respondeu: — Fala, porque o teu servo ouve (1 Samuel 3.10).
Uma das marcas mais evidentes da intimidade entre duas pessoas é sua capacidade de comunicação. Usando palavras, trocando olhares, sinalizando gestos ou simplesmente em silêncio, pessoas íntimas percebem o que o outro está pensando, sentindo ou desejando o tempo todo. Não é diferente no relacionamento com Deus. Pessoas íntimas do Senhor têm uma grande capacidade de falar e ouvir, expressar e perceber, desejar e atender o desejo de Deus. Muitos homens e mulheres da Bíblia alcançaram grande intimidade com o Senhor, como Abraão, que foi chamado amigo de Deus (Tiago 2.23); Moisés, com quem o Senhor falava face a face (Êxodo 33.11; Deuteronômio 34.10); ou Davi, homem segundo o coração de Deus (Atos 13.22). Essas pessoas, dentre muitas outras, conseguiram perceber com clareza quando Deus falava. Dentre tantos, um menino chamado Samuel aprendeu a ouvir o Senhor, mesmo em tempos difíceis. Vamos aprender com ele.
Ouviu em tempo de silêncio: Naqueles dias, a palavra do Senhor era muito rara; as visões não eram frequentes (1 Samuel 3.1b). Samuel viveu em um tempo de escassez espiritual. A Palavra era rara, as visões quase inexistentes, e até mesmo os sacerdotes estavam espiritualmente adormecidos. Era um tempo de distância, de frieza, de descuido. Mas foi justamente nesse tempo que Deus resolveu falar. Em meio ao silêncio, uma voz ecoou. E entre tantos, um coração estava desperto para ouvir. Ouvir a Deus quando todos ouvem é mais fácil. Mas ouvi-lo em tempos de silêncio, quando quase ninguém mais percebe sua voz, é sinal de intimidade. De forma singela, Samuel demonstrou sua abertura ao relacionamento com Deus ao levantar-se, imediatamente, toda vez que ouviu o Senhor o chamar. Revelava disposição, bom ânimo, interesse, boa vontade. Precisou apenas aprender a direcionar corretamente sua atenção. O Senhor quer acabar com o tempo de silêncio em nossa vida.
Ouviu ainda criança: O menino Samuel servia o Senhor, diante de Eli … Samuel ainda não conhecia o Senhor, e a palavra do Senhor ainda não havia sido manifestada a ele (1 Samuel 3.1a, 7). Samuel era apenas um menino. Não tinha maturidade, nem vivência espiritual aprofundada. A Bíblia diz que ele ainda não conhecia o Senhor e que a palavra do Senhor ainda não lhe havia sido revelada. Mesmo assim, foi chamado. Mesmo assim, foi escolhido. Deus não espera idade, diploma ou status. Ele procura corações sensíveis. E encontrou em Samuel alguém disposto a ouvir, mesmo sem compreender tudo de início. Seu coração de menino era justamente o que o tornava pronto: em vez de malícia, havia pureza; em vez de segundas intenções, havia sinceridade; em vez de autossuficiência, havia abertura e dependência. O Senhor ama falar com os pequenos – não só em estatura, mas em humildade. A infância de Samuel, mais do que um dado biográfico, é um lembrete: ninguém é novo ou pequeno demais para ouvir a voz de Deus.
Ouviu com discernimento: Fala, porque o teu servo ouve (1 Samuel 3.10b). Samuel não apenas ouviu, mas aprendeu com Eli a discernir quem falava e como deveria responder. A escuta espiritual exige discernimento em duas direções: quem está falando e como devemos responder. Nem toda voz que ouvimos vem de Deus. É necessário aprender a distinguir a voz do Senhor da voz da nossa alma ou das sutilezas do inimigo. Samuel precisou desse direcionamento. Ele era sensível, mas ainda imaturo. A orientação de Eli o ajudou a perceber que era o Senhor quem o chamava. Mas também é essencial discernir como responder. Samuel respondeu com submissão, prontidão e reverência: “teu servo está ouvindo”. Essa resposta revela um coração alinhado, que ouve com a disposição de obedecer. Ouvir a Deus é mais do que captar palavras – é acolher sua voz com o desejo sincero de se submeter. Foi com esse coração que Samuel deu o primeiro passo em sua jornada como profeta. Nasceu um líder que, em toda a sua vida, ouviria o Senhor. Alguém que viveu pertinho de Deus.
A história de Samuel nos desafia a sermos sensíveis à voz do Senhor, mesmo em tempos de silêncio, mesmo com pouca experiência, mesmo sem compreender tudo de início. Deus continua chamando. E espera encontrar em nós ouvidos atentos e um coração puro e disposto, como os daquele menino no templo. Que a nossa resposta seja sempre: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”.
Pr. Rodolfo Montosa


