Lucas 22.39-46
Todos nós enfrentamos dias maus: momentos em que a angústia bate à porta e a adversidade ronda nossa alma. Em algum momento da vida, todos atravessamos noites em que o coração parece pesado, a esperança enfraquece e já não conseguimos discernir com clareza o que está acontecendo dentro e ao redor de nós. Foi exatamente esse o cenário vivido por Jesus e seus discípulos no Getsêmani. O texto revela três verdades indispensáveis para quem deseja atravessar o dia mau sem sucumbir: reconhecer o perigo que nem sempre percebemos, vencer o labirinto em que a alma pode se perder e permanecer na presença que nos fortalece.
O perigo não percebido (vv 39-40). Antes mesmo de a crise explodir, Jesus advertiu seus discípulos: Orem, para que vocês não caiam em tentação (v 40). Eles percebiam o peso da tristeza, mas não enxergavam a dimensão da batalha ao redor. Pouco antes, Judas fazia um pacto para trair, os discípulos discutiam entre si quem era o maior, Pedro era avisado que negaria, Jesus os alertava que a hora estava chegando, para o que eles disseram que tinham duas espadas, ao que Cristo respondeu: basta! Não havia discernimento. A provação nem sempre chega de forma evidente; muitas vezes ela se instala silenciosamente, enquanto ainda acreditamos que tudo está sob controle. Assim também aconteceu com Elias: depois da grande vitória no Carmelo, uma única ameaça de Jezabel foi suficiente para revelar que um novo combate havia começado (1 Reis 19.1-4). Quem deixa de vigiar dificilmente percebe o tamanho da prova que está diante de si.
O labirinto da alma (vv 45-46). Quando Jesus voltou aos discípulos e os encontrou dormindo, exaustos de tristeza (v 45 – NVT). O sono não era a causa, mas o efeito de uma alma profundamente abatida. A tristeza, o medo, a decepção e o esgotamento podem transformar o coração em um verdadeiro labirinto, onde perdemos a direção e já não conseguimos enxergar uma saída. Elias também entrou nesse labirinto quando fugiu para o deserto, desejou a morte e se refugiou numa caverna (1Reis 19.4, 9-10). Toda alma abatida procura um lugar para se esconder; a grande questão é se esse esconderijo nos afasta de Deus ou nos conduz novamente a ele.
A presença que fortalece (vv 41-44). Jesus enfrentou o dia mau levando seus amigos juntos e permanecendo na presença do Pai. Sua oração não afastou o cálice, mas lhe deu forças para enfrentá-lo, e Deus enviou um anjo para confortá-lo. Elias também foi visitado pelo Senhor, alimentado por um anjo e lembrado de que não estava sozinho, pois ainda havia sete mil que permaneciam fiéis em Israel (1 Reis 19.5-8,11-18). Deus fortalece seus filhos por meio de sua presença e também por meio da comunhão com aqueles que coloca ao nosso lado. O caminho para vencer a prova não é o isolamento, mas permanecer na presença de Deus e caminhar junto ao povo de Deus.
Jesus não apenas ensinou o caminho; ele o percorreu primeiro. Enquanto os discípulos transformaram sua tristeza em sono, Jesus transformou sua angústia em oração. Sua voz continua ecoando para cada um de nós: Por que vocês ainda estão dormindo? Levantem-se e orem (v 46). No dia mau, não somos chamados a negar a dor, mas a levá-la para a presença do Pai, onde a alma encontra força para permanecer de pé.
Rodolfo Montosa


